Mineiro na Paraíba, Dom Genival Saraiva.

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Mineiro na Paraíba

A migração é um fenômeno corriqueiro na vida de pessoas e na história dos povos. Isso acontece, em muitos casos, por escolha das pessoas por razões diversas como estudo, trabalho; em situações concretas, dá-se por força do ofício, como nas transferências, e por circunstâncias especiais, como nos exílios. Em se tratando de projeto pessoal, a migração, via de regra, enseja realização, bem estar, por corresponder às suas aspirações, às suas expectativas; em casos de transferência, em razão de ofício, quando não há uma assimilação, torna-se um problema a nova realidade humana e geográfica que passa a fazer parte da vida de uma pessoa; se tratando de um transplante forçado, como o exílio dos judeus na Babilônia, a migração se torna um problema familiar, social, cultural, econômico, político.

Na década de sessenta, chegou um mineiro à Paraíba – Dom José Maria Pires. Por dever de ofício, mentalmente, veio para a Arquidiocese da Paraíba, em 1965, transferido da Diocese de Araçuaí – MG; fisicamente, veio em 1966, quando tomou posse, canonicamente, como 4º Arcebispo da Paraíba. Não lhe faltaram fidelidade à vocação, fé em Deus e amor à Igreja para sair de seu mundo e vir para a missão numa nova terra. Revelou grande afinidade e efetiva identificação com a Paraíba a ponto de definir-se como “um paraibano nascido em Minas Gerais”. São muitos os traços da personalidade, da formação humanista e da ação evangelizadora que identificam Dom José Maria Pires como ser humano, como bispo, como pastor. Mais do que por sua negritude, distinguiu-se em seu pastoreio por sua coerência evangélica, durante os trinta anos de seu ministério como Arcebispo da Paraíba. Amigos, animadores pastorais e outras pessoas puderam ler seu estado de espírito tanto na leveza de seu sorriso, no dia a dia, quanto na sisudez de sua face, em momentos de apreensão ministerial. Graças ao lastro de sua formação familiar, de sua vivência cristã, de sua consciência eclesial e à largueza de sua visão pastoral, amplos horizontes se descortinaram no cumprimento de sua missão de sacerdote e bispo. As bases e a prática pastoral do Concílio de Trento, sob cuja teologia realizou seus estudos no Seminário e iniciou seu ministério sacerdotal e episcopal, foram confrontadas com a realidade eclesial do século XX pelo jovem Bispo e pelos “Padres conciliares”, respondendo ao chamado dos Papas João XXIII e Paulo VI. Consciente do valor da colegialidade, Dom José Maria Pires vivenciou-a na CNBB, no Regional Nordeste 2 e na Província Eclesiástica da Paraíba. Além de participar da redação dos seus Documentos, ele procurou aplicar as orientações pastorais do Concílio Vaticano II com a visão, o discernimento e a coragem que lhe eram peculiares. Como na vida de qualquer ser humano, acertos e erros estão registrados em sua história, no tocante a meios e metodologia de trabalho. Todavia, ninguém tem elementos para questionar a retidão de suas intenções e a lisura de sua ação pastoral, sempre se colocando ao lado de pessoas desprotegidas, eclesial, social e politicamente. Ele continuará falando hoje e ainda por muito tempo através de testemunhas oculares, pessoas que o conheceram, que viveram e trabalharam come ele; continuará falando hoje e no futuro por meio de seus muitos escritos; neles são visíveis a qualidade de sua formação, a experiência de sua vida e o rosto de sua espiritualidade.

Dom José Maria Pires veio para a Paraíba no verdor dos anos episcopais e, embora residindo em Belo Horizonte, no entardecer da vida, não se distanciou, física, afetiva e espiritualmente, do universo geográfico e humano da Arquidiocese da Paraíba. Enquanto seu corpo repousa no chão da Catedral de Nossa Senhora das Neves, à espera da ressurreição, ele participa da “ceia na casa do Pai.”

 

Dom Genival Saraiva

Bispo Emérito de Palmares – PE