Natureza e ser humano

Dom Genival Saraiva
Bispo emérito de Palmares (PE)

A natureza e a vida humana estão intimamente interrelacionadas. Mais do que isso, a história do cosmos e das civilizações confirma o estado de interpendência. Ao fazer a leitura desse fenômeno, o estudioso, sob a ótica cientifica, e o religioso, sob o olhar bíblico, chegam, fundamentalmente, à mesma constatação. Cada uma dessas vias de investigação e de manifestação do conhecimento está ao alcance das pessoas, conforme o nível de sua formação e de seu interesse, ao se referir a ambiente, ecologia, sensibilidade ecológica, “virtudes ecológicas”, ecossistema, equilíbrio, harmonia, bioma, biodiversidade, poluição, degradação social, mudança climática, reciclagem, efeito estufa, energia renovável, bem coletivo, “cultura do cuidado”, desenvolvimento sustentável, etc. Portanto, em relação a esse duplo olhar sobre a natureza e a vida humana, há um “consenso científico muito consistente”, bem como uma compreensão da contribuição da Sagrada Escritura: “Bíblia como fonte de descoberta. As histórias da criação do Gênesis são interpretadas como uma ordem para o cultivo responsável e a proteção da natureza.” “Conforme delineado na Laudato Si’, a visão de uma abordagem integrada da preocupação com todas as pessoas e com o meio ambiente tem raízes nas Escrituras e na história do pensamento católico, em particular na tradição da Doutrina Social da Igreja, que remonta ao final do século XIX. Além disso, estudiosos e ativistas católicos têm falado abertamente sobre a conexão entre questões sociais e ambientais por muitos anos.” Nesta Encíclica, o Papa trata das relações do ser humano, numa tríplice ordem: “as relações com Deus, com o próximo e com a terra. Segundo a Bíblia, estas três relações romperam-se não só exteriormente, mas também dentro de nós. Esta ruptura é o pecado. […] Como resultado, a relação originariamente harmoniosa entre o ser humano e a natureza transformou-se num conflito (cf. Gn 3,17-19)” Assim, o Papa Francisco identifica a correlação entre a natureza e o ser humano, não no estado do desejado equilíbrio, mas numa situação de desequilíbrio, portanto, em estado de crise.” “Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza.” (LS 139).

A população, em âmbito local, nacional e mundial, constata, hoje, a situação de crise que envolve a natureza, na face das calamidades, e o ser humano, vítima das tragédias. “A palavra calamidade deriva da língua latina: calamĭtas. O conceito é usado para fazer referência a um desastre ou uma catástrofe que afeta uma grande quantidade de indivíduos.”. Por sua vez, a tragédia é “Gênero dramático que trata das ações e dos problemas humanos de natureza grave, geralmente termina com personagem principal morto ou sem seus entes queridos.” Há calamidades provocadas por fenômenos da natureza, como o movimento das placas tectônicas sob os continentes, causando terremotos, ou “em alguns casos, em virtude da agitação intensa de águas oceânicas, os tsunamis.” Todavia, há calamidades, como estiagem prolongada ou excesso de chuvas, em muitos lugares e em determinados tempos, que podem ser identificadas na relação conflituosa entre a natureza e o ser humano. Portanto, esse estado de coisas não é “obra do acaso”; ao contrário, fundamentando-se na “relação de causa e efeito”, a ciência e o conhecimento empírico explicam que o status quo do comportamento alterado da natureza é atribuído ao ser humano e às instituições sociais que interveem de forma desastrosa.

Na mente das pessoas, na memória da população estão gravados os registros e imagens de calamidades naturais, como as que, recentemente, atingiram Municípios da Bahia, Pernambuco, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, e, atualmente, São Paulo, com muitas mortes, com famílias desalojadas e desabrigadas. Há casos de tragédias, como a que atinge a Terra Indígena Yanomani, no Estado de Roraima, provocando desnutrição, fome e doença em que vive no meio da natureza, como consequência da porteira aberta para a iniquidade do garimpo ilegal e do uso de produtos que contaminam a água, o solo, a vegetação. Outra tragédia traz grande sofrimento para a população da Ucrânia, provocada pela guerra promovida pela Rússia. Além de mortes e destruições, o conflito causa grande prejuízo à natureza. Ambas, calamidades e tragédias, causam muito sofrimento às pessoas e deixam dolorosas consequências sociais e econômicas na vida da população.

Todos sabem que para se restabelecer o equilíbrio e a harmonia entre a natureza e o ser humano, o percurso é longo, a atuação demanda tempo e a operação exige intervenções apropriadas, em qualquer parte do mundo.

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