Artigo sobre a Campanha da Fraternidade, Dom Antônio Fernando Saburido, OSB

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Campanha da Fraternidade

 

A cada ano, na celebração da Quaresma e em preparação para a Páscoa, a Igreja nos convida a participarmos da caminhada pascal de Jesus. A Campanha da Fraternidade foi criada pela CNBB em 1963, quando o Concílio Vaticano II tinha vivido apenas sua primeira sessão. O objetivo da CF era aplicar as propostas do Concílio no Brasil, através de uma pastoral de conjunto, assumida por todas as dioceses do país e pelas forças vivas da Igreja. A intuição fundamental é que para vivermos a fé, precisamos atuar na solidariedade, cuidar mais intensamente da fraternidade entre as pessoas e da proteção à natureza como criação divina que a Páscoa de Jesus vem renovar.

Nesse ano, a Campanha da Fraternidade retoma o tema do ano passado sobre a terra como “casa comum, nossa responsabilidade” e o concretiza e amplia mais ainda aplicando-o à realidade brasileira. Propõe que organizemos a fraternidade em comunhão com os biomas que temos em nosso país e com os respectivos povos de cada bioma. O tema da CF 2017 é “Fraternidade: os biomas brasileiros e a diversidade da vida“. O lema é: Cultivar e guardar a criação (Gn 2,15).

Chama-se bioma um conjunto de natureza que apresenta características iguais tanto na sua topografia, na distribuição de seus rios ou nascentes de água, na sua  vegetação, clima, animais que ali vivem e principalmente a população que ali mora e sua cultura. No Brasil, temos, fundamentalmente, seis biomas: a Amazônia, a Caatinga, o Cerrado, a Mata Atlântica, os Pampas e o Pantanal. Cada um desses biomas é expressão da rica e variada criação que nos foi presenteada amorosamente por Deus e por isso dele devemos cuidar.

Todos nós sabemos que, na realidade atual do país, a expansão das atividades agropecuárias e da urbanização no país tem provocado destruição ambiental. Embora possua uma grande biodiversidade, o Brasil corre o risco de perdê-la se continuamos nesse caminho que o papa Francisco denunciou: “Quando se fala de biodiversidade, no máximo pensa-se nela como um reservatório de recursos econômicos que poderia ser explorado, mas não se considera seriamente o valor real das coisas, o seu significado para as pessoas e as culturas, os interesses e as necessidades dos pobres”. (Cf. Laudato si, n. 190).

A CF 2017 é uma oportunidade para conhecermos melhor e podermos cuidar com mais amor da rica diversidade de nosso país, relacionada com todo o planeta. Ela nos convida a termos uma atitude solidária com os desafios de cada bioma, principalmente aquele no qual vivemos e do qual, de certa forma, dependemos nós e toda a natureza na qual estamos inseridos. No caso da nossa arquidiocese, vivemos todos na Mata Atlântica. Ela se encontra no litoral e percorre 17 estados de norte a Sul. Nela estão mais da metade dos municípios brasileiros. Na região da Mata Atlântica, se concentra 72% da população brasileira. Esse alto índice de povoamento e com forte urbanização faz com que da primitiva mata restem apenas uma porção ínfima (8, 5%). Essa destruição da natureza produz uma enorme deterioração no clima e na qualidade de vida da população, assim como ameaça a sobrevivência de muitas espécies vegetais e animais. Em nossa região, da Mata Atlântica restam apenas pequenos pedaços de verde, em meio à selva de pedra. Nossos rios estão poluídos e, com isso, toda a natureza está agredida e ameaçada.

Para mudar essa realidade, precisamos intensificar o cuidado amoroso com a natureza. O papa Francisco afirma: “Estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde” (LS 89). “Tudo está relacionado e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra”. (LS 92).

Ao celebrar nessa Páscoa o memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus, somos chamados a entender que a paixão de Jesus se expressa hoje no sofrimento do povo pobre que enfrenta o aumento do desemprego, a deterioração das suas condições de vida e a negação dos seus direitos básicos de cidadania. A paixão de Cristo também se expressa na agressão contínua e situação de risco pela qual passa a Mata Atlântica e todos os biomas brasileiros.

  Desejo a cada um/uma de vocês uma santa e renovada Quaresma e Páscoa de Jesus.

 

 

Dom Antônio Fernando Saburido, OSB

Arcebispo de Olinda e Recife

 

 

 

 

 

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