É tempo de esperar, Dom Antônio Fernando Saburido, OSB

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É tempo de esperar

“Este é o momento favorável. Este é o dia da salvação” (2 Cor 6, 2).

Concluído o Ano Santo da Misericórdia, estas palavras que sempre escutamos no início da Quaresma podem nos ajudar especialmente nesse ano de 2016 a entrarmos com alegria nesse novo tempo litúrgico. Desde cedo, as Igrejas chamam as quatro semanas anteriores ao Natal de “tempo do Advento”. Em latim, o termo Advento significa “vinda”. Conota um modo de esperar muito particular. Propõe aguardarmos a realização do projeto divino no mundo, do mesmo modo como, a cada noite, o guarda noturno espera ansiosamente que o dia desponte. A tradição cristã ensina que a realização definitiva desse projeto divino sobre o mundo se realizará pela manifestação da presença de Jesus. Por isso, os evangelhos nos convidam a esperá-lo como servos que aguardam, preparados e atentos, à vinda do Senhor.

Até hoje, há cristãos que reduzem o Natal a uma memória sentimental do nascimento do menino Jesus. Os pais da Igreja ensinavam que não adianta lembrar o nascimento de Jesus em Belém se, hoje, não fizermos do nosso ser interior um presépio para acolher não apenas o menino Jesus, mas o projeto pelo qual, um dia, ele nasceu nesse mundo. Para isso, é preciso que leiamos a nossa fé e interpretemos toda a Bíblia como revelação desse projeto. A festa do Natal também não deve ser apenas a ocasião para enganarmos nossa solidão com um aumento do consumo. O importante é abrirmos nossas mentes e corações para acolher a promessa divina e testemunharmos ao mundo as razões de nossa esperança de que essa vida tem sentido e o mundo pode ser transformado.

Cada ano, no tempo do Advento, a Igreja Católica no Brasil realiza uma Campanha da Evangelização. O objetivo é suscitar um renovado amor missionário nos fieis. Assim, seguindo o exemplo do Pai das misericórdias, que saiu ao encontro dos dois filhos que necessitavam de acolhimento e compreensão, todos anunciarão ao mundo que, não obstante nossas faltas e desmerecimentos, somos profundamente amados pelo Pai e podemos fazer a experiência da presença do Senhor no meio de nós. Participar dessa campanha e colaborar com ela é um sinal de que “Ele está no meio de nós”.

No Brasil, estamos vivendo um tempo especialmente difícil e exigente. Quem é cristão não pode se deixar envolver por nenhuma onda de intolerância e violência contra quem pensa diferente. Principalmente, nós, pastores, devemos recordar que, pela vinda de Jesus em nossa carne, Deus abriu conosco um diálogo amoroso e nos estimula a viver a vocação para dialogar e conviver em meio às diferenças. Nesse Advento que segue o “ano da misericórdia”, o papa Francisco nos chama à solidariedade em especial com os pobres e nas pessoas deles ouvir Jesus que nos diz: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém abrir a porta, eu entro e ceio com ele e ele comigo” (Ap 3, 20).

Desejo a todos e todas, que integram esta nossa querida arquidiocese, um renovador tempo do Advento. Que, de fato, ele nos ajude a celebrar um Natal, espiritualmente consciente e transformador e, ao mesmo tempo, solidário com nossos irmãos mais pobres e necessitados.

Dom Antônio Fernando Saburido, OSB
Arcebispo de Olinda e Recife

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