Artigo de Dom Genival, sobre a Família e Natureza

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Família e natureza

A família é considerada uma instituição humana. Para quem tem uma formação religiosa, além da sua face natural, a família é vista por sua origem divina, como ensina o livro do Gênesis. Deus criou o homem e a mulher, em razão de seu plano de amor, e os tornou superiores a tudo que fazia e faz parte da natureza criada. Na Nova Aliança, Jesus valorizou o homem e a mulher, elevando a sua união conjugal à dignidade de sacramento. Ademais, os cristãos sabem que Jesus valorizou a família, ao nascer e ser educado na família de Nazaré. A sua origem divina e a sua função procriativa constituem o valor primeiro. Efetivamente, sem a união conjugal não haveria vida e sem a família a convivência não teria os fortes vínculos que se revelam no dia a dia de seus membros. Por experiência, todos sabem que na família há valores naturais, como a geração de filhos e o cuidado com seu desenvolvimento, valores sociais, como a educação dos filhos e convivência humana, e valores espirituais, como a educação da fé e o testemunho religioso. Com efeito, a família tem seu lugar na Sagrada Escritura e seus valores sempre são reconhecidos e proclamados pelo magistério da Igreja.

Na sociedade contemporânea, por razões ideológicas, fazem-se leituras divergentes do ensinamento bíblico e eclesial a respeito da família e da condição de seus membros. Isso começa com o próprio conceito de família, de união conjugal e de diferenciação sexual. Um aspecto sobre o qual recai essa leitura divergente, por parte de pessoas ou de sistemas educacionais, diz respeito à identificação da sexualidade, ao defender-se e ao pretender-se adotar a “ideologia de gênero”. O Papa Francisco, na Exortação “Amoris Laetitia” (Alegria do Amor), n. 56, traz a palavra oficial da Igreja sobre essa ideologia. “Outro desafio surge de várias formas duma ideologia genericamente chamada gender, que ‘nega a diferença e a reciprocidade natural de homem e mulher. Prevê uma sociedade sem diferenças de sexo, e esvazia a base antropológica da família. Esta ideologia leva a projetos educativos e diretrizes legislativas que promovem uma identidade pessoal e uma intimidade afetiva radicalmente desvinculadas da diversidade biológica entre homem e mulher. A identidade humana é determinada por uma opção individualista, que também muda com o tempo’. Preocupa o fato de algumas ideologias deste tipo, que pretendem dar resposta a certas aspirações por vezes compreensíveis, procurarem impor-se como pensamento único que determina até mesmo a educação das crianças. É preciso não esquecer que ‘sexo biológico (sex) e função sociocultural do sexo (gender) podem-se distinguir, mas não separar’. Por outro lado, ‘a revolução biotecnológica no campo da procriação humana introduziu a possibilidade de manipular o ato generativo, tornando-o independente da relação sexual entre homem e mulher. Assim, a vida humana bem como a paternidade e a maternidade tornaram-se realidades componíveis e decomponíveis, sujeitas de modo prevalecente aos desejos dos indivíduos ou dos casais’. Uma coisa é compreender a fragilidade humana ou a complexidade da vida, e outra é aceitar ideologias que pretendem dividir em dois os aspectos inseparáveis da realidade. Não caiamos no pecado de pretender substituir-nos ao Criador. Somos criaturas, não somos onipotentes. A criação precede-nos e deve ser recebida como um dom. Ao mesmo tempo somos chamados a guardar a nossa humanidade, e isto significa, antes de tudo, aceitá-la e respeitá-la como ela foi criada.”

Vida, família, paternidade, maternidade, filiação são realidades humanas muito próximas, como linguagem da natureza e como traço da mão de Deus.

                                               Dom Genival Saraiva

                                               Bispo Emérito de Palmares – PE

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