Artigo: A Paróquia e o Pároco: uma relação esponsal

Pe. Matias Soares
Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório
Arquidiocese de Natal

O tema da esponsalidade é cara à espiritualidade cristã. Desde o Antigo Testamento é o próprio Deus que assume a imagem do Esposo do seu Povo. O mais elevado tributo que no Antigo Testamento é concedido ao matrimônio é o da união esponsal como Aliança de amor entre Iahweh e Israel (cf. Jr 31-31-34; Lumen Gentium, 9). A primeira ideia aparece em Os 2: o tema da passagem não é o direito e a posse do marido, mas o seu amor que é mais forte que a infidelidade da mulher, esforçando-se com infinita paciência para reconquistar o seu amor. A imagem é retomada em Is 54,4s; 62,4s; Jr 2,2; 3,20, onde é confirmado o tema do amor. A citação da imagem em Ez 16 e 23 demonstra menos delicadeza de sentimento, acentuando mais o poder do marido e a falta de fidelidade da mulher. Essas passagens, juntamente com Ct e as passagens da literatura sapiencial, demonstram mais do que qualquer outra coisa nas narrativas e nos dados jurídicos do AT que o matrimônio no antigo Israel era uma união baseada no amor” (cf. John L. Mckenzie. Dicionário Bíblico, pág. 594). Essa forma de ser reconhecida a relação conjugal encontrará lugar nas construções teológicas acerca do modo com o qual Cristo amou à sua Igreja e, por ela, se entregou (cf. Ef 5, 21-32).

A teologia da aliança, como podemos conhecer na teologia vetero-testamentária, possibilitou que fosse reconhecida, a partir da ideia da fidelidade devotada do povo ao seu Deus, a superação do legalismo matrimonial ao pacto de amor que, no Exílio, passa a ser contemplado e vivido a partir de um coração que ama (cf. Jr 31,3). É esse amor que gera compromisso e pertença, apesar dos desafios culturais e estruturais do povo. Essa relação passa a ser esponsal e duradoura. Transcende o legalismo e as imposições externas. Encontra eco na condição afetiva e subjetiva das pessoas e será plenamente concretizada, na plenitude do tempo, na pessoa de Jesus Cristo. No Novo Testamento, “Ele reconciliará em Si todas as coisas, levando a sua relação com a Igreja a um outro nível, que pela fé coloca a família na sua forma original (cf. Mc 10, 1-12). A família e o matrimônio foram redimidos por Cristo (cf. Ef 5, 21-32), restaurados à imagem da Santíssima Trindade, mistério donde brota todo o amor verdadeiro. A aliança esponsal, inaugurada na criação e revelada na história da salvação, recebe a plenitude do seu significado na relação que existe entre Cristo e a sua Igreja. O matrimônio e a família recebem de Cristo, através da Igreja, a graça necessária para testemunhar o amor de Deus e viver a vida de comunhão. O Evangelho da família atravessa a história do mundo desde a criação do homem à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26-27) até à realização do mistério da Aliança em Cristo no fim dos tempos com as núpcias do Cordeiro” (cf. Ap 19, 9; Amoris Laetitia, 63). Trago essa construção teológica, porque assim como os Bispos têm as Dioceses como esposas, os presbíteros necessitam ter as suas comunidades eclesiais – paróquias e afins – e, como estas, ter uma relação misticamente esponsal. À luz da palavra de Deus, como vimos, essa relação é, humanamente, necessária ao fortalecimento da dimensão existencial dos ministros ordenados. Nós também, nos compreendemos e realizamos inseridos, não só efetivamente – aspecto jurídico -, mas antes de tudo, afetivamente, vinculados à uma família.

O Papa Francisco, tratando ainda da Alegria do Amor na família, afirmou que “a postura de Jesus é paradigmática para a Igreja (…). Ele inaugurou a sua vida pública com o sinal de Caná, realizado num banquete de núpcias (cf. Jo 2, 1-11; Amoris Laetitia, 64). Jesus é o esposo capaz de trazer a alegria a sua esposa, que é a Igreja. A sua presença torna-se efetiva, porque ele sinaliza que os seus sinais nos remetem ao seu maior sinal, que será o da sua Páscoa, em favor da salvação de todos os que Nele acreditarem por ouvir, acolher e testemunhar a sua palavra, que é eterna (cf. Jo 6, 68). No horizonte cristológico, densamente tecido pela eclesiologia conciliar, está sempre a chamada para que nos relacionemos esponsalmente com as comunidades nas quais estamos inseridos. Essa proximidade, no contemporâneo, antes de considerar o espaço; precisa ter presente o significado do tempo, pois este último é superior ao primeiro (cf. Evangelii Gaudium, 222-225). Podemos avançar na conclusão afirmando que a dimensão afetiva é mais importante do que o que é efetivo; o que é jurídico, não poderia sobrepor-se ao evangélico; a lógica do poder, não deveria ser a condição do corrosiva do bem das comunidades e das pessoas que as constituem.

No início do exercício do meu ministério presbiteral ouvia os padres mais experientes da nossa Igreja Particular de Natal, com frequência tratando da importância dessa relação afetiva, que eles tinham com as comunidades das quais eram servidores há décadas. Recordo-me de um modo particular das ‘escutas qualificadas’ do então Pe. Armando, longevo vigário da freguesia de Goianinha. Dentre tantas partilhas e afirmações que ouvi do dedicado vigário, uma delas foi o testemunho de um presbítero que ‘tinha uma psicologia de pai’ (cf.https://www.arquidiocesedenatal.org.br/post/padre-e-pai-uma-psicologia), acerca da sua relação paternal com aquela comunidade. Era interessante que todos que chegavam a sua residência tinha a preocupação de dizer: “Benção Pe. Armando? E o probo Levita do Senhor respondia: “Deus o abençoe, viu!” Como não lembrar da paternidade espiritual do então Monsenhor Antônio Barros, longevo pároco da minha ex-paróquia de São José de Mipibu?! Ali o aristocrático levita do Senhor serviu por cinquenta e três anos, e marcou, tanto religiosamente, quanto socialmente, a vida do povo daquela região. Poderíamos citar tantos outros exemplos, com suas marcas muito mais positivas do que negativas, em nossa amada Arquidiocese de Natal, com a sua trajetória de protagonismo.

Mesmo sabendo que os tempos são líquidos e complexos, dinâmicos e instantâneos, a lógica do Código de oitenta e três continua tendo a preocupação de primar pela “estabilidade, tanto da comunidade, quanto dos padres”, como bem nos recorda a Congregação para o Clero, citando o CDC: “Não podem prudentemente ignorar-se, todavia, algumas dificuldades que a cura pastoral in solidum – sempre e de qualquer forma integrada apenas por sacerdotes – pode comportar, pois é conatural aos fiéis a identificação com o seu pastor, e pode ser desorientadora e não compreendida a presença variante de mais presbíteros, ainda que coordenados entre si. É evidente a riqueza da paternidade espiritual do pároco, como um ’pater familias’ sacramental da paróquia, com os consequentes vínculos que geram fecundidade pastoral”. Continua o documento afirmando que “quando as circunstâncias o sugiram, confiar uma paróquia a um administrador pode constituir uma solução provisória. É oportuno lembrar, todavia, que o múnus de pároco, sendo essencialmente pastoral, requer plenitude e estabilidade. O pároco deveria ser um ícone da presença do Cristo histórico. É a exigência da configuração a Cristo, que ressalta este compromisso prioritário”(cf.https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cclergy/documents/rc_con_cclergy_doc_20020804_istruzione-presbitero_po.html,19). Mas é também consequência desta mudança de época os desequilíbrios existenciais dos novos presbíteros, que mesmo como diocesanos, e não religiosos, terão que estar submetidos às variações emocionais e estruturais, que os colocarão em situação de inseguranças, medos e sem ânimo para projetar ações para longo prazo; estarão tentados a não preocupar-se em assumir responsabilidades que não sejam imediatistas. O que deveríamos ter presente é o discernimento evangélico e eclesial, o diálogo e a escuta, as situações concretas e o bem comum.

Há duas situações que analisadas ao interno das comunidades, e considerando as conclusões que podemos inferir da preocupação das mudanças constantes dos párocos das paróquias, que como já fundamentamos, não condiz com o espírito do Concílio Vaticano II, já que neste o que será primado é o bem do povo de Deus, com a sua estabilidade como um direito, nem com as recepções contidas no Código de Direito Canônico, fomentam essa metodologia de vai e vem de padres das comunidades, a saber: 1- A influência do esquema da vida religiosa no modus operandi da dinâmica diocesana; 2- A preocupação de deslegitimar o papel dos presbíteros, como pastores próprios das suas comunidades, tendo em vista o reforço da centralidade do poder pelo poder. Esse esquema trará, a curto e longo prazo, problemas ao processo da ‘pastoral de conjunto’ da Igreja Particular. Para os presbíteros religiosos, isso não acarretará grandes deturpações, já que o vínculo maior destes últimos é com as suas ordens e congregações; mas, aos diocesanos, que perderão as condições para uma ‘paternidade espiritual e a amizade social’ com as pessoas, que foram e sempre serão muito importantes para a configuração das comunidades eclesiais e civis (cf. S. Tomás de Aquino. Comentário à Ética a Nicomaco de Aristóteles, Livro VIII), essas permutas constantes, sem um discernimento eclesial, podem acarretar consequências que poderiam ser analisadas com mais prudência e respeito às pessoas envolvidas. O significado da relevância da amizade para o bem das comunidades é abordado pelo Papa Francisco, quando ele tratou do “diálogo e da amizade social” como caminhos imprescindíveis ao processo civilizatório e humanístico para o nosso tempo (cf. Fratelli Tutti, cap. VI).

Assim como acontece com os Bispos, as transferências dos párocos e demais presbíteros de cada responsabilidade eclesial precisam acontecer quando o bem da Igreja Local está em jogo. Se a questão fosse mesmo missionária, os Bispos também, de modo coerente, deveriam também passar por mudanças constantes; mas estas, quando acontecem, são contextualizadas e inseridas num projeto mais amplo de evangelização. Sem uma construção dialógica e respeitosa de processos, muitas mudanças só geram instabilidades e desintegrações de tudo o que pode ser tido como ordenamentos estratégicos para longo prazo. A vida da Igreja ainda depende do protagonismo dos presbíteros nas comunidades das quais eles são “pastores próprios”, mesmo que sob a autoridade dos Bispos diocesanos (cf.https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cclergy/documents/rc_con_cclergy_doc_20020804_istruzione-presbitero_po.html,18). No cenário contemporâneo, ainda precisamos levar em consideração o caminho sinodal, que exige a escuta constante de todos os órgãos representativos das Igrejas Particulares, especialmente, nestas situações específicas, dos Conselhos Presbiterais, que são o único e indispensável órgão consultivo dos Ordinários locais (cf. https://www.arquidiocesedenatal.org.br/post/artigo-o-conselho-presbiteral-e-a-sua-missão). Na dinâmica da sinodalidade, o que tem a ver com todos, precisa ser tratado por todos. O que em alguns contextos podemos perceber são os sinais de perjúrio na negação efetiva desta metodologia.

O Papa Francisco descreveu a situação existencial do homem contemporâneo afirmando que “na sociedade atual, o ser humano ‘corre o perigo de se desorientar do centro de si mesmo’. O homem contemporâneo encontra-se com frequência transtornado, dividido, quase privado de um princípio interior que crie unidade e harmonia no seu ser e no seu agir. Modelos de comportamento infelizmente bastante difundidos, exaltam a sua dimensão racional-tecnológica ou, ao contrário, a instintiva. Falta o coração” (cf. Dilexit nos, 9). A dinâmica das relações humanas não pode ficar a mercê das ações que visam só a manutenção de um poder monárquico e verticalizado. Mesmo já sendo visto com uma certa distância, mas ainda com suas granulações narrativas ainda atuais, o que fora descrito por Michel Foucault na sua obra “microfísica do poder”, acerca do modo com o qual o poder acontece nos variados canais instituídos da sociedade, serve também para aprofundarmos o significado da liderança e do estilo a ser desenvolvido, quando nos utilizamos do poder também na Igreja, sem abusos e com profundo respeito às consciências de cada membro da comunidade eclesial. A insensibilidade e a violência, sejam elas verbais ou de quaisquer outras formas, renegam a mensagem evangélica e as genuínas orientações da Igreja (cf.https://www.ihu.unisinos.br/categorias/663913-o-abuso-de-poder-e-de-consciencia-na-igreja-artigo-de-matias-soares).

Por fim, a preocupação de oferecermos um norte credível ao mundo passa pela nossa forma de agirmos, enquanto seguidores de Jesus Cristo, que nos ensinou que, entre nós, as práticas deveriam ser diferentes (cf. Mc 10, 43-45). O Papa Francisco nos lembrou que o “estilo sinodal” deve ser o modo de ser da Igreja no terceiro milênio. Os horizontes que nos são postos tendem a fazer com que percamos o encantamento com os ensinamentos que nos são repassados. Os mecanismos de funcionamento, com suas estratégias, nem sempre são coerentes. Temos que contemplar o mistério do discipulado, que tem um único foco a ser reconhecido (cf. Mt 10, 38-39). Em tempos de tantas complexidades, cabe ainda a prática das virtudes, que exigem racionalidade, atenção aos sinais dos tempos e a busca constante de justa medida, tendo em vista a história, as circunstâncias e o modo respeitoso de exercício do poder, que existe para a busca do bem comum. As demais instituições têm o desafio da estabilidade do mundo dos seus membros, como algo extremamente relevante para o bem estar de todo a corporação no mundo de hoje. A Igreja que é “perita em humanidade”, não pode agir diferente. Assim o seja!

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