A unidade, mandamento divino e vocação nossa

Dom Fernando Saburido
Arcebispo emérito de Olinda e Recife (PE) e referencial para a
Comissão Regional para Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso da CNBB NE 2

Vivemos em um mundo castigado por mais de 50 guerras nas quais povos inteiros são ameaçados de extinção, muitos, por causa de petróleo e de interesses econômicos. No Brasil, canais de comunicação e grupos de internet atiçam cada vez mais a polarização que divide o povo brasileiro e mesmo comunidades de fé.

É preciso que, ao menos, as comunidades cristãs convertam-se ao mandamento divino do Amor e tomem consciência de que a unidade não é apenas um ideal a ser desejado. É mandamento dado por Jesus: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” (Jo 13, 35). Por essa unidade entre nós, na véspera de sua Paixão, Jesus orou ao Pai: “Que todos sejam um, como Tu, Pai, estás em mim e eu em ti. Que eles estejam em nós, afim de que o mundo creia que Tu me enviaste” (Jo 17, 21).

Foi por desejar essa unidade que, em 1960, o papa São João XXIII convocou a reunião de todos os bispos do mundo no Concílio Vaticano II. O objetivo do Concílio foi renovar a Igreja, para tornar possível a unidade. João XXIII afirmava que nunca será possível a unidade cristã, desejada por Jesus, se cada Igreja não se renovar interiormente. Para isso, esse papa propunha a “volta às fontes”, ou seja, a conversão ao evangelho e, ao mesmo tempo, o aggiornamento, ou seja, atualizar-se para melhor viver a missão no diálogo com a humanidade de hoje. Mais recentemente, o Papa Francisco insistia que a Igreja não pode fechar-se em si mesma, em suas doutrinas e costumes. Deve ser “Igreja em saída” na direção das periferias do mundo.

Em 1965, o Concílio publicou um decreto sobre a Unidade Cristã. Ele começa afirmando que a Unidade é a própria vocação da Igreja. Por isso,  todos os cristãos devem ser ecumênicos. A razão disso é, antes de tudo, porque a unidade é vontade de Deus e mandamento de Jesus Cristo. A divisão é contra a vontade de Cristo, manifestada nos evangelhos. Por isso, é um escândalo para o mundo e obstáculo para a missão. De fato, Jesus pede ao Pai pela unidade dos seus discípulos e discípulas, para que o mundo possa crer (Cf. Unitatis Redintegratio, 1).  

Podemos, então, deduzir: a unidade entre as Igrejas não é somente um ideal. É mandamento divino e é nossa vocação. Pede conversão ao evangelho e abertura interior para nos abrir ao dom divino do Amor, pois é unidade em Cristo. Por isso, é importante a oração pela unidade.

Desde o começo do século XX, surgiu em algumas Igrejas, (Católica, Anglicana e Luterana), o costume de uma vez por ano, dedicar uma semana especial à oração pela unidade cristã. No hemisfério sul, a Semana da Unidade sempre é celebrada nos dias entre a festa da Ascensão de Jesus e Pentecostes. Naqueles dias, através da oração pela unidade, pedimos o dom do Espírito Santo, para vivermos a nossa fé de modo ecumênico e nos abrirmos aos irmãos e irmãs de todas as Igrejas. Neste ano, a Semana da Unidade ocorre entre os dias 17 a 24 de maio. Para cada ano, o Dicastério para a unidade dos cristãos e uma comissão do Conselho Mundial de Igrejas prepara um roteiro de encontros, para os quais, escolhe-se um verso bíblico para guiar as meditações e celebrações da semana. Para este ano, o versículo escolhido é: “Há um só corpo e um só Espírito. Do mesmo modo que a vossa vocação vos chamou a uma só esperança” (Ef. 4, 4).  

 Essa palavra da Carta aos efésios situa-se no texto, no qual o apóstolo declara que, por causa do evangelho, está na prisão e pede que os irmãos e irmãs aceitem-se uns aos outros, em suas diferenças e mantenham a unidade do Espírito, pelo vínculo da paz” (Ef. 4, 1- 3).

A unidade cristã não se fará pela unificação institucional, nem pela conversão de uma Igreja a outra. O caminho é a conversão ao Cristo e nos deixarmos guiar pelo Espírito, para aquilo que o Conselho Mundial de Igrejas chama: diversidade reconciliada. No século IV, Santo Agostinho propunha: “unidade no essencial, liberdade no que não é essencial e caridade em tudo”. Às vezes pode parecer que, quanto mais nós somos apegados às tradições, mais fieis à palavra de Deus. No entanto, nossa vocação cristã é estarmos sempre mais atentos a escutar a e obedecer ao que, “hoje, o Espírito diz às Igrejas” (Ap 2, 5).

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