Artigo: A Venezuela e o Brasil

Pe. Matias Soares
Capelão da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

O mundo acompanhou atônito a invasão da Venezuela pelos americanos, com o intuito de prender o presidente Nicolás Maduro. Os interesses estão centrados no petróleo. Isso ficou claro na declaração dada logo na primeira coletiva de imprensa pelo chefe de estado americano. O que menos importa é o bem do povo venezuelano. O megalomaníaco estadunidense é um reflexo da mentalidade da maioria daqueles cidadãos, que o elegeram. Algo sobre Trump pode ser dito de verdadeiro: ele não nega suas intenções e interesses. As suas ameaças sempre têm um fundo de verdade, principalmente quando os seus propósitos estão em jogo. As suas ameaças e atitudes antes da prisão do ditador da Venezuela, já sinalizavam o que veio a ser concretizado no nosso país vizinho. Agora, resta aguardar o desenrolar dos próximos capítulos desta odisseia grotesca e preocupante, inclusive para os demais países da América Latina.
 
Pelos idos do ano de dois mil e dezessete, eu estive nos Estados Unidos para um curso de verão, quando àquela época fazia a minha pós-graduação em ética teológica, em Roma. Dentre tantas observações culturais e oportunidades que foram-me oferecidas, chamou-me à atenção o modo com qual os cidadãos norte-americanos referiam-se a si mesmos, enquanto nação: eles eram a “América”. Aquilo sempre inquietava-me. Era como se todo o continente americano fosse um único reflexo da América. Na maioria das casas, sempre era perceptível uma bandeira hasteada. O nacionalismo era patente. Os outros são os outros, sem importância, nem valor diferenciado. Sem dúvida, isso é uma construção que, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial, foi aflorada pelo modo como a sua supremacia foi confirmada pela sua força bélica e o seu capitalismo parasitário. Esse, por sua vez, é a grande motivação em torno da qual funciona todas as construções ideológicas daquele povo.
 
O presidente Trump representa aquele projeto de nação, que com o fortalecimento econômico e geopolítico da China, está sendo ameaçado. Atrás desta locomotiva estão outros países como a Rússia e a Índia. O mundo globalizado até então dominado pelos ideais estadunidenses, com a sua ideologia liberal, desde que os seus interesses não sejam ameaçados, está passando por uma planetarização, na qual outros atores globais começam a ganhar força e potência. Contudo, estes mesmos também estão a violentar os direitos internacionais, como a Rússia na Ucrânia e, possivelmente, a China em Taiwan. Ainda podemos citar o drama vivido no Oriente Médio, com a guerra entre Israel e o Hamas, tendo o povo palestino como o mais vitimado até o momento.
 
Há algum tempo que o Brasil também passa por situações de ameaças. Já tivemos algumas mais recentes; mas, considerando o que está sendo vivido pela Venezuela, o que teremos num futuro não tão distante será a atenção voltada à Amazônia. Ela está presente em vários países da nossa América do Sul. Aliás, os demais países americanos, tão menoscabados pelos norte-americanos e sua mentalidade absolutista, têm muitas riquezas naturais. Mas, somos uma região vulnerável e militarmente limitada ao enfrentamento de potências como a dos Estados Unidos. Basta acompanhar o que está acontecendo naquela república bolivariana e em tempos passados com uma parte do México. A maior riqueza do Brasil para o presente e o futuro da humanidade está na região amazônica. Há a urgência de um projeto de estado brasileiro que visualize esse desafio já atual e, ainda mais, para os prognósticos futurísticos.
 
A nossa região está dividida politicamente. Esses extremismos são alimentados pelas lideranças que manipulam as massas. E isso só nos fragiliza enquanto região. O continente europeu também sofre com suas incertezas hegemônicas. O próprio presidente americano já o alfinetou acerca do declínio do futuro da União Européia. De fato, o velho continente sempre parasitou as suas riquezas das suas colônias. Essas fontes estão secando. Alguns daqueles países já olham também para os recursos naturais dos nossos territórios, como os investimentos feitos em energias e potências da nossa região. Ainda nos veem como subdesenvolvidos. E estão certos; porém, não reconhecem que fomos surrupiados durante muitos anos por eles, com suas invasões, como podemos constatar em nossa história colonial. Ainda nos tratam de modo pejorativo. Basta recordar os comentários feitos pelo premier alemão, quando esteve em Belém do Pará para a COP 30.
 
A resistência passa pelo fortalecimento da nossa cultura, principalmente com um forte investimento em educação. Essa será a nossa maior arma contra os colonialismos, principalmente o ideológico. As invasões estadunidenses acontecem todos os dias aos nossos lares. O que consumimos é uma prova disso. Temos muitas discussões pela frente acerca do que aconteceu na Venezuela. As aulas de direito internacional terão muito conteúdo a ser debatido. Enquanto isso, os interesses econômicos estão sempre como base das ações nacionalistas e saudosas dos regimes totalitários. O velho Marx estava certo: “a economia move todas as estruturas”. Enquanto eles pelejam pelo petróleo venezuelano, ficamos com as narrativas e o noticiário que nos alimentam de acordo com as nossas ideologias. Quanto ao nosso futuro, há muitas incertezas e outras possíveis invasões dos mais fortes em detrimento dos mais fracos. Estamos necessitando de mais humanidade e menos guerra. Sonhemos e lutemos por isso. Assim o seja!
 

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