Escuta, Acolhe e Proclama a Palavra

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O mês de setembro é dedicado especialmente à Bíblia. Neste ano concluímos, com o Evangelho de João, um ciclo de quatro anos, nos quais o Projeto Mês da Bíblia tem nos ajudado a sermos discípulos missionários a partir dos Evangelhos. Somos convidados a crescer na escuta, na acolhida e no anúncio da Palavra de Deus.

Neste primeiro domingo do mês da Bíblia, o Evangelho segundo Marcos (Mc 7,31-37) apresenta-nos um homem surdo e gago que é colocado diante de Jesus para que ele o cure. Quem é esse surdo-gago? É a humanidade, enquanto fechada para o dom de Deus que Jesus nos traz. Surda, porque incapaz de ouvir a Palavra, ouvi-la compreendendo-a, acolhendo-a no coração: “tem ouvido para ouvir, mas não ouve” (Jr 5,21). Esta é a tendência do coração humano, que a Escritura sempre denunciou: o fechamento para não acolher a proposta que Deus nos faz, de um caminho com ele. Construímos a sociedade e construímos nossa vida privada, nossos valores, nossas escolhas, do nosso modo, sem realmente ouvir a proposta e o caminho que o Senhor nos indica. Reunimos e escutamos os diversos especialistas (economistas, sociólogos, psicólogos etc) mas, parece que o Senhor não tem mais nada a nos dizer! Somos uma geração de surdos!

Ora, se somos surdos, também não podemos falar com clareza. As nossas palavras não chegam ao essencial da vida, do sentido da existência, não podemos proclamar de verdade a alegria da salvação, da plenitude de quem sabe de onde vem e para onde vai. Jesus cura primeiro a surdez e, depois, a gagueira do homem. Quando ele puder ouvir o Senhor, tornando-se discípulo pela fé, também poderá falar, proclamar a ação de Deus em Jesus: do Deus que salva e nos mostra o sentido da vida.

Somente Jesus pode curar o homem de seu fechamento, para escutar, acolher e proclamar. Falta à nossa geração aquela valentia para proclamar, para professar sem medo e respeito humano nossa fé.

Este caminho do surdo-gago é urgente para o cristão: reaprender a escutar de verdade Jesus e falar dele ao mundo no testemunho corajoso, pois, somente assim, a humanidade atual encontrará a paz que tanto almeja. Somente em Cristo aquilo que o profeta Isaías anuncia, de modo tão belo, pode realizar-se: “Dizei às pessoas deprimidas: ‘Criai ânimo, não tenhais medo! Vede! É o nosso Deus que vem; é ele que vem para salvar!’ Então se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos, assim como brotarão águas no deserto e jorrarão torrentes no ermo. A terra árida se transformará em lago, e a região sedenta, em fontes d’água” –Quando Deus vem, quando ele está presente, tudo é vida, tudo é plenitude, tudo canta de alegria! Não é disso que nosso mundo atual tanto precisa? Mas, o homem fechado na sua soberba, nós, fechados no nosso comodismo! – jamais vai experimentar isso!

Para acolher na alegria e simplicidade, é necessário reconhecer-se necessitado, como o surdo-mudo, que procurou Jesus, para que lhe impusesse as mãos: somente quem é pobre diante de Deus, quem se reconhece pequeno diante do Altíssimo, pode abrir-se para a salvação e recebê-la do Senhor! Daí o lembrete de São Tiago: “Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam?” São palavras que nos incomodam e até escandalizam: Deus prefere os pobres, porque os pobres são abertos para Deus.

Que o Senhor nos cure da surdez e da gagueira; faça-nos atentos à sua Palavra; dê-nos olhos para reconhecê-lo nos irmãos, sobretudo nos pobres e sofredores; conduza os governantes ao com­promisso com o bem comum e a paz de toda a nossa Pátria amada.

Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena
Bispo de Guarabira (PB)

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