A Palavra de Deus é o verbo vivo e encarnado

0

Com tais palavras de São Bernardo de Claraval, chegamos a setembro, o chamado ‘Mês da Bíblia’. Comumente, em nossas assembleias, neste período há um bonito intento de tecer comentários acerca da Palavra de Deus a fim de elucidá-la no coração dos fieis, incitando-os não somente à leitura, mas à uma experiência profícua com ela.

Com razão, São Jerônimo dirá: “A ignorância nas Escrituras é ignorância ao próprio Cristo”. Penso que poderíamos ir mais além. Não que eu ouse ultrapassar o conceito do grande exegeta Jerônimo – longe de mim fazê-lo! Entretanto, atrevo-me, inspirado naquilo que a Igreja entende por Palavra de Deus: ignorar a Palavra de Deus é ignorar ao mesmo Cristo. E os meus leitores podem, razoavelmente, indagar-me: “Esta afirma do nosso Bispo não redunda na mesma afirmação do Doutor Jerônimo?”. Respondo-lhes: Sim e não concomitantemente. E, para ser mais explícito, tentarei discorrê-lo no decorrer do presente artigo.

A Palavra de Deus não é um livro; é uma Pessoa: Jesus Cristo, o Verbo Divino. Neste sentido, contemplar-nos-á o grande místico São João da Cruz: “A partir do momento em que nos deu o seu Filho, que é a Sua única e definitiva Palavra, Deus nos disse tudo de uma só vez nessa Sua Palavra e não tem mais nada a dizer”. Logo, Jesus, o Verbo, é a plenitude da Revelação. Fora de quem não há verdade alguma sequer, por ser Ele a plenitude da Verdade, a própria Verdade (cf. Jo 14,6).

“Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho” (Hb 1,1-2a). Com este aferir doa anônimo autor da Carta aos Hebreus, temos uma contribuição para transcendermos à ideia de que única e somente a Bíblia seja Palavra de Deus. O ser da Palavra difere do conter a Palavra. Se o Verbo Jesus Cristo é, a Bíblia – Escrituras – a contém. E somente isto! O que não se constitui um reducionismo, tampouco um desprezo ou marginalização das Escrituras.

O Apóstolo e Evangelista São João nos diz na conclusão do quarto evangelho do Cânon Bíblico: “Jesus fez ainda muitas outras coisas. Se fossem escritas uma por uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever” (Jo 21,25). Assim, entrevemos a limitação da Bíblia em, sozinha, ensinarmos com destreza o que Deus nos quis falar. Da mesma forma em que as Escrituras Sagradas contêm a Palavra, a Tradição e o Magistério igualmente trazem as verdades divinas, e, relacionados, formam o que chamamos ‘Depósito da Fé’. Por esse motivo, o Catecismo da Igreja Católica nos dizer: “A Tradição sagrada e a Sagrada Escritura estão intimamente unidas e compenetradas entre si. Com efeito, derivando ambas da mesma fonte divina, fazem como que uma coisa só e tendem ao mesmo fim. Uma e outra tornam presente e fecundo na Igreja o mistério de Cristo, que prometeu estar com os seus, ‘sempre, até ao fim do mundo’ (Mt 28, 20). A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus enquanto foi escrita por inspiração do Espírito divino. A sagrada Tradição, por sua vez, conserva a Palavra de Deus, confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos, e transmite-a integralmente aos seus sucessores, para que eles, com a luz do Espírito da verdade, fielmente a conservem, exponham e difundam na sua pregação. Daí resulta que a Igreja, a quem está confiada a transmissão e interpretação da Revelação, não tira só da Sagrada Escritura a sua certeza a respeito de todas as coisas reveladas. Por isso, ambas devem ser recebidas e veneradas com igual espírito de piedade e reverência” (CIC 80-82). E, quanto ao Magistério: “O encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus, escrita ou contida na Tradição, foi confiado só ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo, isto é, aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma. Todavia, este Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente, haurindo deste depósito único da fé tudo quanto propõe à fé como divinamente revelado” (Ibidem 85-86).

“A Palavra de Deus é viva e eficaz” (Hb 4,12). A Palavra não é letra morta, mas o Cristo que está vivo e atuante em nosso meio; que fala conosco, orienta-nos e arde-nos o coração. É preciso que o ouçamos em Suas vias de comunicação e transformemo-nos numa atitude de embate com a Sua vida divina manifestada em Sua Palavra, que se nos apresenta em diversas ocasiões da vida, sendo, no entanto, eterna. A essa atitude contrastante, chamemos conversão. Convertamo-nos à Palavra, e perceberemos o seu poder vivificante em nós, proporcionando viver a altura de Cristo, estando totalmente imbuídos d’Ele.

Share.

Leave A Reply